
Não resisti… Li esta história no jornal de hoje e quero compartilhar com vocês. Por que?
É linda! 
Por Bruno Astuto
Outro dia eu estava em Paris, sentado num café olhando para o nada — o que lá é perfeitamente normal, ninguém sente pena de você — e entraram dois velhinhos, a passos bem vagarosinhos, de mãos dadas.Eles se sentaram naquela que deveria ser sua mesa de sempre, e logo chegou uma garrafinha pequena mergulhada numa mini-bacia de gelo, contendo vodca, e dois copinhos.
Em seguida, um prato de ostras, que eles chupavam com muito gosto, antes de brindar a si mesmos e tomar a vodca de uma vez só. Depois riram muito, trocavam confidências ao pé do ouvido e ficaram lá, grudadinhos, os dois do mesmo lado, para comentar o que viam no café. Metido que sou, não pude me conter e os interpelei para dar meus parabéns, dizendo que eu estava feliz de ver aquela cena rara hoje em dia, um casal ainda feliz depois de tantos anos, como dois namorados apaixonados. Ao que eles imediatamente retrucaram: “Mas nós não somos casados. Estamos só namorando”.
Eles insistiram que me juntasse a sua mesa, eu fingi que recusei, mas, como tenho um fraco por uma boa história, acabei sentando. Adoraram que eu era brasileiro — francês adora um brasileiro — e ele me disse que já tinha ido ao Rio de Janeiro duas vezes; a primeira, na Copa de 1950, quando ficou “muito triste” com a vitória do Uruguai sobre o Brasil; a segunda, em 83, quando se hospedou no Copacabana Palace com a mulher — e foi aí que conheceu sua amada de hoje.
Ela estava na piscina, com o marido de então, e os filhos. Não resistiu aos charmes que lhe fazia aquele tipão, então com 58 anos (ela também), e, entre uma escapada e outra das respectivas famílias, deram asas ao calor do momento. “Imagine que ele pegou uma suíte e nós nos encontrávamos quando surgia uma oportunidade”, contou a velhinha, às gargalhadas.
E daí perguntei se eles se separaram depois de viver essa grande paixão, mas a resposta foi não, claro que não, os dois adoravam seus respectivos cônjuges e nunca mais se viram.
No ano retrasado, quando ele, já viúvo, leu no jornal o anúncio da morte do marido dela, não pensou duas vezes: pegou o carro e foi direto para o enterro, e ela ficou felicíssima com o reencontro. Desde então, começaram a namorar. As famílias ficaram horrorizadas, claro, e acharam um absurdo; uma das filhas chegou a sugerir que iria mandar interditar a mãe. “É uma chata, uma solteirona”, reclamou a velhinha comigo. “O pai dela me fez muito feliz, mas não quer dizer que eu tenha que morrer depois disso”.
Parece uma fábula, mas é tudo verdade, juro. Tive um fim de tarde maravilhoso e saí do café flanando, com os telefones deles na bolsa, ainda que saiba que não vou ligar. Foi uma história mágica num momento mágico, e assim ficará sempre na minha memória. O melhor se deu quando perguntei se eles não gostariam de voltar ao Brasil para reviver o lugar em que se conheceram. “Nem pensar”, disse ele. “Vai que tem outro bonitão na piscina do Copacabana Palace e ela resolve me largar”. Isso, do alto dos 85 anos de cada um.
Extraída daqui.
Imagem extraída do Google.