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	<title>O Cantinho da Borboleta Azul &#187; Carlos Drummond de Andrade</title>
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	<description>Quinto ano</description>
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		<title>Perder, ganhar, viver</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Jul 2010 14:40:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sonia H.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um belo texto do Drummond, escrito quando perdemos a Copa de 1982, porém sempre atual&#8230;. Como é bom ler um texto que acaricia a alma. Drummond nos lembra que perder é começar de novo. Vambora, gente!
 
 Carlos Drummond de  Andrade, Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982
Perder,  ganhar, viver
Vi  gente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um belo texto do Drummond, escrito quando perdemos a Copa de 1982, porém sempre atual&#8230;. Como é bom ler um texto que acaricia a alma. Drummond nos lembra que perder é começar de novo. Vambora, gente!</strong></p>
<p><strong> </strong><img class="alignleft size-full wp-image-1119" title="Bandeira" src="http://ocantinhoda.borboletaazul.net/wp-content/uploads/2010/07/Bandeira1.jpg" alt="Bandeira" width="648" height="486" /></p>
<p style="color: #000000; font-style: italic;"><span style="font-size: small;"> Carlos Drummond de  Andrade, Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982</span></p>
<h1 style="color: #000000;">Perder,  ganhar, viver</h1>
<p style="color: #000000;"><span style="color: #0000ff;">Vi  gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas&#8230;</span></p>
<p>Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. <span style="color: #0000ff;"> </span></p>
<p>Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.</p>
<p>Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.</p>
<p>E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o  ano já está na segunda metade?</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><br />
</span></p>
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