Perder, ganhar, viver

Um belo texto do Drummond, escrito quando perdemos a Copa de 1982, porém sempre atual…. Como é bom ler um texto que acaricia a alma. Drummond nos lembra que perder é começar de novo. Vambora, gente!

Bandeira

Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982

Perder, ganhar, viver

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?


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Tags: , , , , , , , , , , Esse texto foi postado em sábado, 3 de julho de 2010 às 11:40 nas categorias Brasil, Carlos Drummond de Andrade, Copa do mundo 2010, Futebol, Poesia, Recomeçar, Reflexão. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

6 Comentários para “Perder, ganhar, viver”

  1. Dalva escreveu:

    Realissimo o texto! Adorei!

    Bjs.

  2. Albuq escreveu:

    Sônia que post renovador!
    Fantástico, até porque a vida continua e a derrota é a força necessária para lutar mais na próxima vez! bjs

  3. Meire escreveu:

    Texto super atual Soninha…mas enfim perdemos e temos que nos conformar, levantar, sacodir a poeira e dar a volta para cima, a vida continua e estamos em ano de eleiçao.

    Sonia como voce esta? Se recuperou bem da cirurgia?

    Bjs

    Meire

  4. georgia aegerter escreveu:

    Sonia, tô arrumando as malas, rs.

    Que texto excelente para mostrar ao povo que idoltria acabou. Acho a torcida brasileira sem pé e sem cabeca. Ficam insandensidos e nao pensam em mais nada na vida.

    Eu fiquei triste por Gana, um time que merecia ter chegado a final.

    Bjao

  5. georgia aegerter escreveu:

    Corrigindo: Idolatria

  6. Grace OLsson escreveu:

    O problema é que ninguém se prepara paa perder. E tem gente que veste taod esesperadametne a camisa daz Selecao que se mata. Deus nos livre.
    Eu tive um sonho, Sonia, que o Brasil perdia para a Holanda por 2×1, fui na Meiroca e dei meu pitaco..menina, bloqueei os cometnarios por que, um monte de gente danou a me esculhambar, dizendo que o pais perdeu por que eu agorei..kkkkkkkkk
    Jesus!!!Eu apenas tive um sonho…

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