“No meio do caminho havia uma pilha de livros”

livros-no-lixo-499x332Update: Gente, coloquei essa imagem extraída do google imagens para ilustrar o quanto é triste ver livros no lixo. Mas a imagem não está relacionada com o relato da moça indignada como eu fiquei com o acontecimento que ela presenciou.

Gente, li este relato de uma leitora do Jornal O Dia online e me identifiquei com a perplexidade dela imediatamente.  Duas paixões minhas são os livros e discos, ou cds, como queiram. Hoje os vinis viraram decoração de festa, como nos 60 anos de um tio meu. Mas confesso: mesmo que não os quisesse mais: discos e/ou livros, eu com certeza ia preferir doá-los para algum brechó, como o do Exército da Salvação que eu sugiro sempre aqui no blog. Jogar no lixo – jamais – Já encontrei muitos desses ‘lixos’ que me trazem nostalgia pelas ruas do meu bairro quando caminho por aqui. Um dia, vi discos de bossa nova e pensei como alguém pôde ter aquela coragem. Outra vez, vi fotos no lixo e várias voavam pela rua… Nossa, senti um dó… Fiquei imaginando quem seriam aquelas pessoas, qual seria a razão para alguém jogar fotos de familiares no lixo?? Eu daria tudo para ter fotos de meus bisavós, dos tempos em que meu bisavô vivia na Síria… Algumas fotos eram enormes, tipo posteres. Outros eram avulsas, sabe aquelas fotos antigas??? Como meu filho diz… “BIZARRO”.

Por isso,  a indignação da moça de Santa Teresa também é minha.

Rio – Um dias desses, andando por Santa Teresa, entre o Curvelo e o Bar do Arnaudo, fiquei estupefata: vários (muitos) volumes da Enciclopédia Barsa e da Enciclopédia Conhecer estavam amontoados na calçada, alguns dentro de uma mala mal fechada. No meio do meu caminho tinha uma pilha de livros, tinha uma pilha de livros no meio do meu caminho!

Já deviam estar há algum tempo encostados em algum outro lugar na casa do dono, pois estavam muito sujos. A calçada era pequena, de modo que era preciso desviar da pilha para passar.

O quadro me levou à minha infância: meu pai fez um grande sacrifício para comprar a Enciclopédia Barsa. Lembro-me do vendedor tentando ajustar o número de prestações para chegar a um preço mensal que meu pai pudesse pagar.

Quando chegou o grande embrulho, já havia um espaço aberto na estante com portas de vidro para acomodar aquele oráculo. Eu e minhas irmãs ficamos muito contentes, e a gente lavava a mão antes de pegar, folheava com cuidado para não marcar as páginas. Fiz muitos trabalhos escolares consultando a Barsa. Nas tardes modorrentas de Marechal Hermes, nos anos 60, era frequente eu ficar folheando aleatoriamente as páginas e viajando por um mundo distante, descobrindo coisas.

A Barsa ali, na beirada da calçada, me desassossegou. Que referências tenho eu num mundo que não se constrange em jogar seus livros na calçada? Será que tudo o que está ali não tem mais serventia? E, se algum dia teve, isso não importa mais? Eu estou ficando velha demais? Será que o livro vai acabar mesmo? Tudo acaba e eu não devo me incomodar com o destino das coisas, não é mesmo?

Ai. Isso passa, como eu passei pela pilha de livros e passarei.

Escrito por Maria de Fátima Riberiro, Analista do IBGE. ( em 15/03/2010)

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Tags: , , , Esse texto foi postado em segunda-feira, 15 de março de 2010 às 22:56 nas categorias Comportamento, Livros, Lixo, Sociedade. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

3 Comentários para ““No meio do caminho havia uma pilha de livros””

  1. georgia aegerter escreveu:

    Que maldade Sonia. Ela bem que poderia ter doado tudo isso.

    Lastimável.

    Boa semana querida.

    Um beijo grande

  2. Sonia H. escreveu:

    Querida,
    Na verdade, a moça está também indignada com o fato de ter encontrado na rua tantos livros jogados, a Barsa e a coleção Conhecer que ela tanto amava ler quando criança.
    Acho que o fato de eu ter colocado aquela imagem dos livros no lixo, confundiu você.
    Beijocas,

  3. Beth Q. escreveu:

    É lamentável, indigno, repugnante e bizarro mesmo!
    O descaso com a cultura é tanto, tanto, que a gente que sempre adorou estas coisas se sente assim meio ameaçados.
    Mas, dizer o quê de um país que tem seus filhos nas sarjetas enquanto outros desfilam de carros importados ao seu lado?!
    É muita bizarrice e contraste, não gosto nada disso e pressinto que teremos dias negros ainda por vir. Afinal, com um presidente que
    nunca leu um livro e diz que quando pega um, dá sono!
    Tamos mal!
    Dilma é a continuidade, podes crer!
    bjs criocas

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