Para refletirmos

O texto é longo mas bem interessante. E absurdo!
Um gordo pode ser presidente? E uma gorda?


A ditadura da magreza influencia nossas escolhas políticas, revela pesquisa americana. Por que as mulheres levam a pior?
CRISTIANE SEGATTO

O preconceito velado (ou explícito) contra os obesos pode ser observado em vários campos da vida social. Para muita gente, gordo é o sujeito preguiçoso e com baixa autoestima que, obrigatoriamente, produzirá menos que os magros no trabalho e na escola. É também o indivíduo desleixado, que não cuida da saúde e só dá prejuízo aos empregadores e ao Estado.

O pré-julgamento que os gordos sofrem no trabalho, na vida escolar e nos serviços de saúde vem sendo estudado há vários anos. Mas há um outro aspecto que só agora tem merecido atenção dos pesquisadores: até que ponto a forma física dos candidatos a um cargo público influencia nossas escolhas políticas? A obesidade pode ser um fator tão importante a ponto de definir nosso voto?

A resposta é sim, segundo a professora Beth J. Miller, do departamento de ciência política da Universidade do Missouri, em Kansas City. Nos dias de hoje, a quantidade de gordura corporal observada em um candidato parece ter adquirido sobre a opinião pública um efeito muito mais impactante do que se imaginava.

Beth chegou a essa conclusão depois de fazer um interessante estudo com 120 estudantes de psicologia e ciência política com idade média de 24 anos. O trabalho foi publicado há duas semanas na revista científica Obesity.

Os alunos foram convidados a dar notas a quatro candidatos depois de ver as fotos deles e ler uma descrição sobre suas crenças políticas. Eram candidatos hipotéticos e não políticos conhecidos. Os voluntários não tinham, portanto, qualquer informação prévia que pudesse influenciar o julgamento que fariam.

Aqui você encontra uma amostra da experiência. Se tivesse que considerar apenas a aparência dos dois candidatos abaixo, em qual deles você votaria? No magrinho da esquerda ou no rechonchudo da direita?

homem gordo

FOTO ‘ENGORDADA’
A pesquisadora manipulou imagens no computador para que a mesma pessoa aparecesse magra ou gorda

Caso não tenha percebido, os dois candidatos são a mesma pessoa. A imagem verdadeira é a do magrinho. Na outra, ele foi “engordado” por meio de uma manipulação de computador. Ambas foram usadas na pesquisa realizada pela equipe de Beth.

Depois de ler informações sobre peso e altura do candidato e suas crenças políticas, os avaliadores viram as fotos. Em seguida, foram convidados a dar notas de acordo com a impressão que tiveram. A avaliação devia levar em consideração traços positivos (moral, competência, capacidade de liderança, inteligência, energia, capacidade de enfrentar um trabalho extenuante) e negativos (desonestidade, preguiça, indisciplina, falta de confiabilidade) sugeridos apenas pela aparência e pelas poucas informações disponíveis.

O que Beth descobriu? Os candidatos com a mesma posição política receberam notas diferentes de acordo com o sexo e o grau de obesidade. As mulheres obesas receberam as piores notas. Na opinião dos avaliadores, elas parecem ter menos capacidade de liderança do que as magras.

Entre os homens, o resultado foi inverso. Os rechonchudos conquistaram a confiança de mais eleitores que os magrinhos. O que explica essa diferença? Eu tinha lá meus palpites, mas resolvi ir direto à fonte.

ÉPOCAPor que as mulheres obesas receberam as piores notas?
Beth J. Miller – Acredito que as candidatas obesas foram as mais mal avaliadas porque nossa cultura exige que as mulheres sejam magras. Essa pressão cultural (reforçada pela mídia) é muito mais forte sobre as mulheres do que sobre os homens.
ÉPOCAPor que os homens obesos se saíram melhor que os magros?
Beth – Novamente acreditamos que isso seja reflexo da pressão cultural. A sociedade tende a aceitar com mais facilidade que os políticos do sexo masculino tenham um corpo grande e largo. Ao ver a foto de um candidato mais corpulento, as pessoas tendem a associá-lo a uma pessoa mais forte, com mais massa muscular e, portanto, mais apta a uma rotina pesada.
ÉPOCAA forma física tornou-se um aspecto tão revelante na avaliação de um candidato a ponto de definir o voto do cidadão?
Beth – Nosso estudo sugere que o sucesso dos candidatos (principalmente das candidatas) numa eleição depende mais dos esteriótipos sobre atributos físicos do que se imaginava. As explicações tradicionais para a escolha de um candidato – ideologia, partido, posições sobre temas específicos – continuam importantes. Mas a aparência física parece desempenhar um papel mais importante do que os pesquisadores e os próprios candidatos notaram até hoje. Quem pensa em disputar um cargo político não deve ignorar esses esteriótipos.
O estudo de Beth foi feito com um público muito específico: estudantes universitários. Apesar dessa limitação, trouxe resultados intrigantes. Para testar até que ponto é possível fazer generalizações a partir desses dados, o próximo passo da equipe será aplicar o estudo à população geral.

Confesso que o resultado da pesquisa não me surpreendeu. Ele me parece bem coerente com a intolerância social reservada à obesidade feminina. Mulheres gordinhas são vistas como desleixadas, fracas, desinteressantes. São punidas com o patrulhamento feroz das outras mulheres – em geral, magras que não toleram perceber nas gordinhas os indícios de celulite sob a roupa justa.

De uma forma geral somos mais condescendentes com a obesidade masculina. O homem gordinho é visto como o bonachão, o boa-praça ou (como revelou a pesquisa americana) um sujeito forte que apenas tem, digamos assim, um excesso de fofura.

A cultura da magreza tem sido implacável com as mulheres. Mas cabe a cada uma de nós se rebelar contra o patrulhamento. Toda vez que uma moça jovem e bonita morre numa clínica de lipoaspiração porque queria ter o corpo das estrelas das capas de revista penso que alguém precisa dar um basta nessa autoflagelação. E esse basta só pode partir de dentro de cada uma de nós.

Você se internaria num hospital, feliz da vida, se tivesse que operar o apêndice? Então por que tantas mulheres se submetem, lépidas e faceiras, a uma cirurgia (e aos tantos riscos inerentes a ela) como se aquilo fosse apenas uma ida ao cabelereiro?

Por que tantas mulheres se submetem a sucessivas lipos? Lipoaspirar é enxugar gelo. A gordura pode não retornar ao mesmo ponto de onde foi retirada mas, basta comer um pouquinho mais ou descuidar dos exercícios, para a gordura se acumular perto dali ou em outro ponto qualquer.

A ditadura da magreza é opressora? Sim, é. Por que ela sobrevive? Por que muitas mulheres aceitam se submeter a ela. É hora de derrubar esse general que, muitas vezes, vive dentro de nós. Vou começar aqui uma campanha pelo relaxamento. É preciso relaxar. E isso não significa ser descuidada com o corpo. Significa não ser neurótica.

Você se alimenta bem, faz ginástica, gasta dinheiro com tratamentos estéticos e uns creminhos. Ainda assim tem celulite, flacidez ou uns quilinhos a mais? Bem-vinda ao clube das mulheres de verdade. Nós somos o padrão. Se alguém foge do padrão não somos nós. São as pouquíssimas magérrimas, lipoaspiradas, photoshopadas, plastificadas que aparecem nas capas de revista.

É preciso entender que essas mulheres dependem da aparência física para sobreviver. Não é o caso da maioria de nós. Se você não precisa das suas curvas para pagar as contas no final do mês, respeite-se mais. E respeite as outras mulheres (normais, gordinhas ou obesas) que movem a sociedade — dentro ou fora da política.

Você sofre preconceito por ser obeso ou obesa? Como acha que as mulheres devem enfrentar a ditadura da magreza? Queremos ouvir a sua opinião.

(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras) Este texto foi extraído daqui.

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Tags: , , , , Esse texto foi postado em segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 às 20:06 nas categorias Notícia, Política, Sociedade, preconceito. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

Um comentário para “Para refletirmos”

  1. georgia aegerter escreveu:

    Sonia, muito boa postagem e assunto super interessante.

    Eu concordo mas também tenho outras concepcoes. Acho que muita gente vê o gordo nao só como forte e simpático, mas tb como aquele que ocupa espaco, sei que a pesquisa foi feita mas nem todo mundo olha o gordo assim como o resultado deu, ser gordo é sinal de mal educado porque come muito. E sabemos que isso nem sempre é verdade.

    Agora o preconceito com a mulher é geral. Seja ela gorda ou magra já existe o preconceito pré concebido. Meu esposo mesmo quando vai no banco para fazer algum negócio ele prefere ser atendido por um homem. Um dia perguntei a ele o porquê do preconceito já que eu nao tinha ciúmes, rs. Ele simplesmente me respondeu que: ele poderá voltar àquele banco daqui a 5 anos e aquele homem estará ali trabalhando enquanto a mulher parou a carreira para se tornar mae. Nao sei se seria um preconceito dele, mas ele tomou o caminho mais fácil de nao ter que contar tudo de novo quando aalguém do banco é trocado. Pude ver nesses anos que ele tem razao. O homem que cuida das nossas financas está lá até hoje enquanto que a mulher da outra sala nao mais. É o fator natureza que fala mais alto nas mulheres: ser mae…

    Outra coisa que observei nessa pesquisa é o atual presidente dos EUA, ele é magro e caiu na graca do povo e confianca, nao precisou ser gordo. Eu acho que as opinioes públicas variam muito de acordo com o momento.

    Um beijao

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