Projeto 12 livros em 12 meses

“Se queres vencer na vida, consulta três velhos”.
(Provérbio Chinês)

Como dito em outro post, este ano participarei de alguns projetos literários como forma de me incentivar a ler mais livros por prazer e tentar driblar os contratempos do meu cotidiano agitado, (o que acontecerá assim que voltar ao trabalho, muito em breve!)

Não tenho a pretensão de criar resenhas acadêmicas mas sim traçar alguns comentarios sobre os meus livros escolhidos. Minha escolha do mês de janeiro foi  “A Ciranda das Mulheres Sábias“, escrito pela psicanalista e poetisa Clarissa Pinkola Estés, 2007, 122 páginas, Tradução: Waldéa Barcellos, Editora Rocco.A ciranda das mulheres sábias Já li outros dois livros desta autora e gostei muito do seu estilo de escrever. Por meio de linguagem metafórica e muitas vezes poética, a autora possui um estilo ’solto’ e ‘leve’ de escrever, como quem quer convidar o leitor/a a sentar-se ao redor de uma lareira ou fogueira e acompanhado/a de pessoas queridas, convida-nos a ouvirmos histórias de vida, sob a perspectiva da mulher madura, ou nas palavras de Estés,  a avó, grand mére, abuela, grande madre…. A narração transcorre em forma de uma conversa  e através do papel exercido pelas avós ou pelas mulheres mais idosas da família, a autora nos conta um pouco sobre a sua própria família e o quanto as pessoas idosas, essas Mulheres Sábias, fizeram a diferença em sua vida. Estés faz referência a três mulheres  de sua família que imigraram para os Estados Unidos quando ela tinha 7 anos. Estas mulheres eram refugiadas de guerra e apesar de terem perdido tudo de material que acumularam ao longo da vida, possuiam algo de mais precioso: “a grande perspicácia, a grande capacidade de premonição, a grande paz, expansividade, sensualidade, a grande criatividade, argúcia e coragem para o aprendizado” (p.10). É claro que essas poderosas mulheres não se tornam sábias  da noite para o dia. Assim diz a autora: “A grande clareza e percepção, o grande amor que tem magnitude, o grande autoconhecimento que tem profundidade e amplitude, a expansão da aplicação refinada da sabedoria…. tudo isso é sempre uma “obra em andamento”, não importa quantos anos de vida a mulher tenha acumulado” (p.11).  Com relação às mulheres sábias descritas por Estés, ela conclui:

“elas nos trouxeram riqueza unicamente por sua existência. Muito embora tivessem sido arrancadas da amada terra natal dos antepassados, tivessem perdido filhos e maridos, tivessem sido despojadas dos seus ícones, da satisfação pelo pano branco que teciam, dos seus locais de culto, das vidas de suas aldeias como elas as conheciam, tivessem sido destituídas do simples conforto da floresta ancestral na proximidade da qual viviam e de todas as suas plantas medicinais; embora tivessem sido privadas da capacidade de proteger suas filhas, seus filhos, seu corpo, sua privacidade, seu pudor – mesmo assim, elas tinham conseguido se manter agarradas ao eu essencial e resistente. O eu que não morre, o eu que nunca morre.

Essas velhas foram a primeira prova absoluta que tive de que, embora a película externa da alma seja magoada, arranhada ou chamuscada, ela se regenera de qualquer modo. Repetidas vezes, a pele da alma retorna a seu estado primitivo e intacto” (p.64 e 65).

Sob esta capacidade de regeneração da alma, a autora traça um belo paralelo entre uma árvore secular e a mulher sábia. Estés conta a história de uma árvore da aldeia em que viveu e que havia sobrevivido por vários séculos a todo tipo de ameaça. Porém um dia, infelizmente a árvore é derrubada sem piedade. Porém, depois de algum tempo, acontece o que a autora chama de um “lento milagre” (p.37 e 38):

“Do cepo liso sobre o qual a árvore viva um dia se erguera, cresceram 12 rebentos a partir da velha árvore avó. Direto para o alto. Fortes. Ondulantes. (…). E continua: “(…)  Esse tipo de árvores com “rebentos” ocorre na Natureza, porque a vida nova está armazenada na raiz – mesmo que a massa maior acima da terra tenha sido derrubada, tenha sido levada dali – mesmo que a vida de uma criatura não tenha sido travada com o devido respeito, ou não tenha sido gerada corretamente – mesmo quando cercada de apatia e indiferença. (…) Independentemente de todas as outras condições, a mulher oculta por baixo da terra cuida do estopim dourado.” (p.39).

A autora complementa que essa “prova atemporal” também se faz presente na mulher de carne e osso.

No parte final do livro, há nove preces de gratidão pelas grandes mulheres sábias, velhas e filhas. São preces lindas…. A primeira termina assim:

“Por elas…

que vivam muito,

com força e saúde,

e com um imenso espírito aberto aos ventos”. (p.92)

Gostei muito deste livro, assim como os outros dois que li da mesma autora: “O dom da história” e “O jardineiro que tinha fé”.

Ë um livro pequenino, porém que nos faz refletir sobre a nossa existência e ancestralidade, principalmente na figura da pessoa idosa e  sobre a importância dos mais velhos em nossas vidas. E cada tia, avó tem um jeito especial de ser e sempre nos acrescenta algo importante. Depois que se vão, restam-nos são as lembranças, mas também restam marcas que percorrerão toda nossa existência….

Infelizmente muitas famílias desprezam seus entes idosos no Brasil.  Em outras culturas, como na China, Japão e Índia, a pessoa idosa é uma espécie de ‘guru supremo’, pois a idade e experiências da vida a tornaram sábia.

Eu valorizo muito as histórias dos mais velhos, pois sei que suas vivências e os tempos que viveram a juventude eram outros e essa troca nos enriquece como ser humano.  Não valorizar tal sabedoria é como ver livros valiosíssimos sendo queimados.  Um horror!!

A Ciranda das Mulheres Sábias é um livro para refletirmos sobre  a importancia de perpetuarmos nossa historia de família e de vida, a qual somente é conseguida através dessa vivênvia maravilhosa entre os mais novos e os mais velhos.

Bookmark and Share
Related Posts with Thumbnails

Esse texto foi postado em segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 às 14:03 nas categorias 12 livros em 12 meses, Literatura. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

10 Comentários para “Projeto 12 livros em 12 meses”

  1. georgia aegerter escreveu:

    Sonia, quando você estava de férias tentei vir aqui e o link nao abriu de jeito nenhum e hoje sem nenhum problema, rs.

    Menina que livro é esse viu? Fiquei impressionada com o que você escreveu. Ele deve ser maravilhoso. Nao conhecia a autora. Já anotei o nome, vou procurar quando estiver por ai, rs.

    Uma linda semana eu te desejo.

    Um grande beijo

  2. Paula escreveu:

    Oi Sonia,
    Adorei, parece muito interessante esse livro, ótima dica.
    Enviarei um email hoje mesmo para os participantes do Projeto 12×12, esclarecendo dúvidas como a sua, fique de olho nos seus e-mails.
    Bjos,
    Paulinha

  3. Renata escreveu:

    Achei o máximo essa troca de experiências…Fiquei muito curiosa com o livro e adorei os trechos transcritos.

    Um beijo!

    Renata.

  4. marta escreveu:

    As mulheres são sempre o lado forte das famílias, já recuperei a história da minha e descobri muito da mulher que foi minha avó. Elas constroem a sua sabedoria no cotidiano e nos inspiram com atitudes.

  5. Na. escreveu:

    Oi Sonia. Também estou participando deste projeto da Paulinha. Achei bastante interessante a sua resenha, não é acadêmica mas foi muito bem desenvolvida e deixou quem passa por aqui com grandevontade de ler o livro. Ainda não conheço os livros desta autora, mas esta sua resenha me deixou bastante interessada! =) Voltarei mais vezes por aqui!
    Xerus
    =***

  6. Bebel Sousa escreveu:

    Que interessante, não costumo ler esse tipo de livro, mas essa discussão sobre a valorização dos mais velhos é muito boa, realmente não cultivamos essa cultura de valorizar a história da nossa família, escutar nossos avós. Muito bom!

    bjus

  7. Monica Loureiro escreveu:

    Fiquei bem interessada em ler este livro ! Dela já lí “MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS”

  8. Maria do Carmo escreveu:

    Oi Sonia,
    tudo bem?
    como funciona esse projeto?
    como faco para participar?

  9. Tereza Luz escreveu:

    Oi, prima Sonia! Adorei encontrar essa sua postagem! Participo de um grupo de leitura que começou com o Mulheres que Correm com os Lobos e agora decidimos ler a Ciranda das Mulheres Sábias. Nossa leitura é feita em grupo mesmo, uma vez por semana, e vamos comentando nossas ideias, compartilhando nossas vivências, fortalecendo o feminino mais necessário, profundo e natural, criativo e cooperativo.
    Muito auspicioso, lendo a sua resenha me senti abençoada por nossas ancestrais… Gratidão!

  10. Sonia H. escreveu:

    Querida Tereza,

    Que bom! Se fosse por aqui, ia adorar participar pois certamente iria me libertar um pouco do trabalho…. Gostei muito de ler este livro. Ainda falta ler o Mulheres……. Li um outro do Jardim, você leu? Beijos no coração!

Deixe um comentário



XHTML: Você pode usar esses códigos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Pode demorar um pouco para mostrar o comentário. Não será preciso postar de novo.