Brincadeiras de Infância – a cultura da alma -



“A cultura da criança é a cultura da alma. Os meninos têm a alma na frente. Depois é que ela vai para dentro. Vai botando pano, papel, livro em cima”. Lydia Hortélio (etnomusicóloga)

Do que as crianças mais gostam de brincar hoje em dia? Será que o tipo de brincadeira da região sudeste difere muito das outras regiões do Brasil ou vice-versa?
Eu posso dizer que fui uma criança feliz, pois tive infância, daquela de subir em árvore, correr e pular muito, brincar de pique, amarelinha, rodar pião, soltar pipa, brincar de ‘pera,uva,maçã’, as danças de roda, o Pai Francisco eu adorava! Bonecas? Sim, claro que eu tinha, mas eram poucas. Não somente eu, mas as crianças das redondezas curtíamos mesmo era brincar com outras crianças. Sei que os tempos são outros. O computador agora também faz parte dessa brincadeira, assim como a televisão, o mp3, 4, etc.
Atualmente muitos de nós vivemos em prédios e nossos filhos não têm a mesma infância que tivemos. Eu tento amenizar um pouco, mas brincar na calçada da nossa rua nem pensar – infelizmente não dá – por que não é seguro. Eu brincava muito na calçada da minha rua com outras crianças e no quintal de casa também. Eu e minha irmã mais nova criamos uma brincadeira entre nós duas onde eu era o Tom e ela o Jerry (do desenho Tom e Jerry) – Eu, Tom, corria atrás de Simone, Jerry, em círculos e naquela fantasia de criança, tínhamos a sensação que voávamos ‘muito alto’ de tanto corrermos – e juro a vocês, aquela sensação é real até hoje! Nós realmente voávamos!!! :-) ))) Eu e minha irmã sempre lembramos dessa brincadeira com nostalgia.

O jornal Folha Online criou o mapa do brincar no Brasil. É um projeto bem legal, por que tem-se a visão geral de como são as brincadeiras infantis no Brasil como um todo. Eu estou no Rio de Janeiro, mas o Brasil é tão imenso! No site, podemos pesquisar os diversos tipos de brincadeiras e suas denominações nas diferentes partes do Brasil. Assim, brincadeiras como amarelinha, com bola, elástico, jogos de salão, pião, e tantas outras aparecem em detalhes. Este mapeamento e as pesquisas em torno do ato de brincar nos mostram o quanto é importante a criança brincar no quintal e interagir com outras crianças.
O site apresenta downloads, vídeos, áudios. Ainda traz, sites interessantes relacionados ao ato de brincar, dicas de cds, livros e teses. Vale a pena conferir!
Neste site também há entrevistas muito interessantes sobre o brincar.
Leia o que uma estudiosa do assunto nos fala sobre a importância do lúdico para a criança:

LYDIA HORTÉLIO

Cultura da alma

A etnomusicóloga e educadora Lydia Hortélio cresceu entre mangueiras no sertão da Bahia. De lá para cá, viu com pesar muitas árvores derrubadas, brincadeiras sendo esquecidas e a chegada da TV anulando os encontros de rua e o convívio das crianças entre elas mesmas na natureza.
Para a educadora, as crianças têm a “alma em frente”. Com o tempo é que ela se esconde lá dentro. Diz que o tempo presente esqueceu a infância. Mas tem esperança. Sente no ar um desejo coletivo de mudança. E convida a todos a entrar na roda da memória.

Como foi sua infância?

Sou de Serrinha, sertão da Bahia, onde brincava-se muito. Tive a sorte de crescer num quintal de 25 mangueiras, muito grande. Meu pai viajava muito e gostava de trazer as frutas que encontrava, assim a gente tinha no sertão da Bahia um quintal que tinha até nêsperas! Minha mãe não gostava de deixar a gente “brincar na casa dos outros”, por isso os meninos viviam lá em casa. Era um quintal cobiçado.

Quais eram as brincadeiras por lá?

Brincávamos muito de picula, de corda, cozinhado, passeávamos pelo quintal com sombrinha de folha de mamão, e, à tardinha, tomava-se banho e ia-se para a porta brincar novamente. De Roda, macaquinho, cinco pedrinhas… Sou capaz de me lembrar do som da pedrinha quando batia na outra na mão da gente. Eram dias completos. Hoje em dia falta pé no chão, espaço para correr, natureza. A gente brincava de tudo, então a cultura da criança se desenvolvia. A cultura da criança é a cultura da alma… Os meninos têm a alma em frente…

Como você vê a infância de hoje?

A gente esqueceu a infância. O Brasil não era assim. Pensava-se na infância. De repente, desde o aparecimento da TV, o convívio das crianças entre elas mesmas foi sendo desmontado aos pouquinhos. Não sei como vamos reverter isso, mas tenho esperança. Há um número significativo de educadores e jovens artistas aqui em São Paulo que estão buscando o Brasil e a infância com muito ardor. E esse desejo é tão sincero, que eu vejo chegar em breve uma virada como precisamos. Tenho grande esperança nisso.

Por que será que existe esse movimento neste momento?

Acho que é porque estamos com saudade de nós mesmos, do Brasil e da infância. Há um mal estar generalizado. O presente configura uma necessidade premente da natureza e do humano. Ou a gente acerta o passo ou não tem depois. É preciso restituir às crianças o espaço de natureza a que têm direito. Menino não corre, não sobe em árvore, não respira ar puro. As escolas são minipresídios, com exíguas salas de aula, recreios limitadíssimos, sem árvores e espaço para brincar. Mas sinto que este é também um momento eloquente, porque o “obstáculo é a alavanca”. Sentimos um mal-estar muito grande, e isto anuncia, certamente, o restabelecimento de uma situação absolutamente inadequada, artificial, que já dura muito tempo, e há muita gente querendo mudar.

Qual é a importância da natureza no brincar?

Para favorecer o desenvolvimento da cultura da criança, a natureza tem um papel fundamental. A cultura da criança se tornou uma questão ecológica. Se você não permite o desenvolvimento da criança, não há futuro, a espécie tende a desaparecer. Hoje em dia, a primeira, a grande preocupação é com a preservação da vida. Precisamos levar os meninos a brincar na natureza!

É preciso uma volta aos quintais?

Sim, os meninos que moram nos apartamentos nem ao playground eles vão que, de resto, são tão pouco interessantes para as crianças. Elas hoje em dia ficam diante do computador a maior parte do tempo vendo aquelas animações estrangeiras, onde tudo é remetido aos olhos e à mente, às mesmas sensações planejadas por adultos que esqueceram a infância, não experimentam seu corpo e estão longe de viver o intercurso alegre e natural com seus pares. Por isso é necessário que venhamos a descobrir como fazer justiça às crianças, tirando-as dos condicionamentos em que vieram cair, buscando oferecer-lhes alternativas de convívio entre outras crianças na natureza. É uma questão inclusive de políticas públicas. É preciso trabalhar por uma conscientização ampla do significado e da importância do espaço de natureza para a vida da criança e o futuro do mundo.

Qual é a importância dos brinquedos musicais na infância?

Acho que a música tradicional da infância é a melhor forma de educação da sensibilidade. E ela deveria se iniciar nos braços da mãe, com uma canção de ninar. É neste momento que a criança ouve as primeiras palavras da língua e se inicia na língua mãe e na língua mãe musical, através da cantiga. Assim é em todas as culturas do mundo. É inestimável o valor do exercício espontâneo da música na infância, uma música onde a palavra, a cantiga, o movimento e o outro se interligam na alegria do brincar.

Imagem da amarelinha extraída daqui.
Outras imagens extraídas daqui.
Imagem da peteca extraída daqui.

Agora eu gostaria de saber sobre as brincadeiras de infância de vocês. Do que vocês brincavam?
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Esse texto foi postado em sábado, 3 de outubro de 2009 às 17:50 nas categorias Brincadeiras de Infância. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

Um comentário para “Brincadeiras de Infância – a cultura da alma -”

  1. Aninha Pontes escreveu:

    Sonia, acho que cada tempo tem suas brincadeiras.;
    Eu brinquei muito, e como você tive liberdade, corri na rua, subi em árvores, enfim, tive tudo que foi importante prá mim.
    Meu filhos tiveram menos, e hoje vejo que meu neto tem menos ainda. E posso te dizer, que o Érick, por morar aqui comigo, um lugar muito tranquilo, ainda tem mais que crianças da mesma idade dele.
    Faz falta, esse ser criança, e pelo máximo de tempo possível.
    Um beijo

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