Adoção, uma história de amor

Talvez faça parte da natureza das meninas e certamente as de minha geração, desejarem ser mães um dia. Eu não fugia à regra. Lembro-me adolescente, idealizando os nomes dos meus futuros filhos e imaginando como eles seriam, quem seriam, se seriam menina ou menino, quantos seriam enfim. Em 1991 eu e meu amado nos casamos. Decidimos não engravidarmos no primeiro ano de casamento para curtirmos a vida a dois e no segundo ano de casados programamos a nossa primeira gravidez. E assim aconteceu: em dezembro de 1992, engravidamos do Samuel. E em 1993, tornei-me mãe de um lindo menino! Eu e meu marido sempre conversávamos sobre o futuro e um dia lhe disse que eu gostaria de adotar uma criança, idéia que ele abraçou por completo. Imaginávamos a princípio termos 3 filhos, dois biológicos e um do coração. Porém, mudamos o percurso da história, por que o parto de Samuel foi muito difícil. Tanto ele quanto eu sofremos e tivemos complicações, e eu fiquei muito receosa de engravidar novamente.
Samuel foi crescendo e em um determinado momento, ele só falava em ganhar um irmão ou irmã para brincar com ele. Neste período, eu fazia especialização na faculdade e quando terminei o curso, fizemos nossa inscrição para adotarmos uma criança. Isto foi em 2001/2002.

**Uma observação: é interessante acrescentar que quando se está fora do contexto dos caminhos até a adoção, imaginamos que será super fácil realizá-la de modo legal, já que todos os dias sai no jornal que uma criança foi abandonada em tal lugar, ouvimos falar dos orfanatos cheios de crianças… Porém, na vida real, a realidade é tão difícil para o lado da criança que espera ser adotada quanto para os futuros pais que desejam ansiosamente adotá-las. E esta dificuldade vem como um balde de água fria, o que no meu caso não foi diferente.

Após a inscrição, somente fui chamada para o curso de habilitação um ano depois. Em 2003, fiz o tal curso, por sinal, um curso relevante, pois nós conhecemos outros casais ou pessoas solteiras que estavam neste mesmo processo. Tivemos 3 encontros e estas reuniões eram organizadas por uma psicóloga e assistente social e eu imagino que a todo momento estávamos sendo avaliados se éramos aptos/habilitados a sermos bons pais. Depois destes encontros em grupo, tivemos encontros individuais ou com os casais somente. Eu fui entrevistada por uma psicóloga e meu marido ficou do lado de fora da sala. Depois, meu marido foi entrevistado e eu fiquei esperando-o fora da sala. Meses depois, uma assistente social esteve em nossa casa para conhecer o espaço que habitávamos e nos entrevistar mais uma vez. De todos os encontros e entrevistas, a assistente social organizou nosso estudo social, uma espécie de histórico sobre nossa família.

Lembro-me que para receber a habilitação, demorou mais um ano! Vocês acreditam nisso??? Pois é, aconteceu comigo e com todos os que estavam participando da dinâmica. Lembro-me também que daquele grupo, nem todos foram habilitados e sinceramente até hoje não sei quais são os critérios de avaliação para estarmos aptos à adotarmos. Gostaria de dizer que acho muito válido sermos avaliados sim, porém o grande tormento neste processo é a morosidade do mesmo. Por que demora tanto tempo, meu Deus?

O sistema precisa mudar, precisa de mais agilidade! As crianças estão crescendo nos abrigos…..

***Outra observação: acredito que o processo para habilitação tenha mudado, mas quando fomos habilitados, recebemos um certifcado assinado pelo Doutor Siro Darlan e uma lista de abrigos onde podíamos visitar para quem sabe, ’sermos escolhidos’ por alguma criança. E foi o que fizemos por muitos finais de semana. Visitamos muitos abrigos, nos apaixonamos por tantas crianças…. Pena não podermos trazer todas para casa pois alguém que tenha carinho e compaixão pelo seu semelhante, não agüenta ver tantas crianças abandonadas, carentes de um olhar amigo, um gesto carinhoso, precisando de atenção e amor. Conhecemos diversos abrigos no RJ e de vez em quando ainda visitamos um ou outro para brincarmos com as crianças. Nos abrigos, os funcionários evitam dizer quais crianças estão para adoção, por que aliás, esta é uma outra grande decepção: antes eu pensava… se estas crianças estão abrigadas, por que não estão para adoção???? Ora, por que simplesmente a grande maioria têm um pai, uma mãe, uma tia, que apesar de não ficarem com elas, não aparecem para darem carinho a seus fihos mas também não os doam para adoção. Existem exceçoes, é claro. Há crianças que estão lá por que seus pais não têm condições de criá-lo/a por inúmeras razões.

Continuando…. Em janeiro de 2004 recebemos nossa tão sonhada habilitação – ufa- finalmente, pensei! Agora será rápido. Neste período, eu participei de um grupo de adoção pela internet onde pessoas de todo Brasil davam suporte emocional e ajudavam a localizar nos abrigos quais crianças estavam para serem adotadas. É importante enfatizar que adoção para mim tem de ser legal, pois fiho é para sempre e neste Brasil de contrastes, existe de tudo… lembro-me uma vez, eu de férias na Paraíba, encontrava-me num salão de cabeleireiro, quando a moça que me atendia notou meu sotaque carioca e me perguntou se eu não gostaria de ‘levar’ uma criança para mim pois havia nascido naquela semana e a mãe já tinha 5 filhos! Eu fiquei perplexa…. pensei: “será que está no meu semblante que eu estou querendo adotar uma criança?” Porém expliquei a ela que o que ela me pedia para fazer, por mais tentador que fosse, era um crime. E eu jamais adotaria daquela maneira. Lamentei pelo bebê que já nascia tão sem futuro :-( e sem perspectivas.

Em julho de 2004 nós queríamos viajar para o nordeste de férias – adoro o nordeste! e como tínhamos muitas milhas, podia escolher o destino… pensamos em São Luís pois ainda não conhecemos, Fortaleza, Recife, João Pessoa que é para onde vamos mais freqüentemente, e no final decidimos por Natal, pois havia ido lá somente uma vez e a impressão que havia me deixado foi de uma cidade muito linda e acolhedora. Era a semana do meu aniversário e voltaria justamente neste dia. Uns dias após termos trocados as milhas para as passagens, recebo um e-mail de uma amiga virtual daquele grupo de apoio, alguém que se tornaria nossa anja! Ela dizia no e-mail que sabia de uma menininha que estava pronta para adoção e não havia naquele momento nenhuma família pretendendo adotá-la. Era uma menina que havia ficado muito doentinha, mas já estava com alta do hospital e pronta para ser feliz. Ela descreveu a menina mais ou menos e me disse que como estava habilitada no RJ talvez tivesse a chance de adotá-la. E ela terminou o e-mail assim: “o problema, Sonia, é que a menina se encontra em Natal... não sei se você iria poder, já que RJ até Natal fica bem longe…” Eu quase que tive ‘um treco’. Telefonei para o meu marido imediatamente e ele quase teve um treco junto comigo. E foi assim que tudo aconteceu. Procurei tanto por aqui. Esperei tanto. E nossa filha estava longe, em Natal. Lembro como se fosse hoje quando chegamos ao abrigo onde ela se encontrava. A assistente social nos trouxe Marcela e ela imediatamente sorriu para nós e tocou a minha perna. Nossas férias se transformaram em descobertas e adaptações. Saímos com Marcela todos os dias que estivemos lá e ao mesmo tempo íamos todos os dias no Juizado para agilizarmos os papéis. Mesmo sendo habilitada no RJ, nós tivemos de fazer a habilitação lá também e todo o processo demorou um ano (2005) até que nossa filha passasse a ter nosso sobrenome. O juizado de Natal enviava as documentações para o juizado do RJ e aqui nós resolvemos tudo.

Num de nossos passeios, fomos a um shoppping em Natal pois queria comprar algumas roupas para ela viajar para o RJ. Meu marido ficou me esperando fora da loja com ela no colo, quando ela de repente, olhou para mim e apontou: “mainha!” Gente, vocês podem imaginar a minha emoção naquele momento? Ali eu me tornei mãe novamente. Eu e meu marido choramos de emoção e Samuel, nosso filho estava maravilhado com a irmã que ganhava. No dia de meu aniversário, eu ganhei uma filha de presente, pois foi no dia 2 de agosto de 2004, o dia que o juiz me deu a guarda provisória e a autorização para que ela viajasse com a gente. Aliás, esta história da guarda parece até novela: a autorização não chegou a tempo de nosso vôo e depois de conversar muito na Varig ( saudades da Varig!!!), a atendente foi muito solidária comigo e conseguiu me encaixar num outro vôo para o RJ, mais tarde. Os aviões lotados…. Portanto, Niels e Samuel viajaram primeiro e nós, eu e Marcela, voltamos num vôo mais tarde pois sem os documentos corretos não teríamos embarcado. E nós duas ainda atrasamos o vôo, todos nos esperavam e eu entrei meio sem graça no avião e não agüentava de cansaço e alegria: olhei para a aeromoça e contei-lhe: “eu acabei de adotar esta menininha linda, ela é minha filha agora. Estava esperando a autorização com a guarda para poder viajar!” E os passageiros que estavam por perto, me parabenizaram. A aeromoça também… Eu precisava dizer a alguém que aquele momento era muito especial para mim. Quando cheguei no aeroporto, minha família em peso nos esperava, afinal, todos queriam conhecer a nossa filha tão sonhada. Na casa de minha mãe houve uma festa de aniversário para mim e para Marcela, que na época tinha 3 anos e 3 meses. Era uma menina séria, totalmente o oposto do que é hoje: nossa Marcela é alegre, meiga demais, amiga, super filha, carinhosa, inteligente e é linda!! Posso afirmar a quem tiver dúvidas, medos, incertezas que siga adiante.
Mas não veja a adoção como caridade! NÃO adote se pensar em caridade! Caridade podemos fazer sempre com todos os que precisam. Mas adoção é um ato de amor. É para todo sempre.

Ao longo desta semana, darei algumas dicas de sites muito úteis para aqueles que desejam ou estão neste longo processo que é gerar um filho do coração no Brasil, por meios legais. Também abordarei outras questões relacionadas a este processo. Nossa princesinha hoje está com 7 anos. Já está lendo, adora matemática, ouvir histórias, dançar, viajar, viver e junto com Samuel formam o nosso arco-íris na família. A relação dos dois não poderia ser melhor. É como se sempre tivesse existido. Um é super unido com o outro. Os dois são verdadeiros irmãos.

Perdoe-me pelo texto longo e se eu não consegui expressar o que sinto pois este assunto mexe verdadeiramente comigo.

Tenham todos uma ótima blogagem!

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Esse texto foi postado em segunda-feira, 10 de novembro de 2008 às 14:37 nas categorias Blogagem Coletiva, adoção, amor. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

12 Comentários para “Adoção, uma história de amor”

  1. Bete escreveu:

    Que historia linda.
    É um processo lento que gera muitas expectativas. Mas o resultado é sempre pleno de compensaçoes.
    Parabens e muitas felicidades.
    Bjs no coração.

    Moro em Macapá, mas sou de Natal, aqule lugar maravilhoso.

  2. Georgia escreveu:

    Sonia, estou vindo lá da Célia e já chorei, chego aqui com esse seu depoimento e me derreti por completo.

    Ah, Amiga, que linda a história do nascimento da filha de vocês. Eu sei que eu já a conhecia,mas nao tao detalhadamente.

    Me arrepiei quando li o plano de Deus para vocês em relacao à Marcela. Vocês estavam mesmo indo à Natal para às férias. Deus tinha mais para vocês ali naquele lugar.

    Estou no aguardo da continuacao e as dicas por aqui para as pessoas que desejam adotar.

    Essa bloagagem, muito está falando ao meu coracao.
    Leia também o depoimento da Talma. Você vai se arrepiara também.

    Um grande beijo em vocês: Família Arco-íris;)

  3. Lino escreveu:

    Sônia, se ela fez a felicidade de vocês, imaginem o que sentiu e como deve ter, também, ficado feliz de ganhar uma boa família.
    Gestos como o seu têm de ser elogiados e reconhecidos.

  4. Soninha escreveu:

    Olá Sonia, minha xará e, agora, colega blogueira!
    Adorei muito mesmo o seu texto. Me fez lembrar as várias situações vividas lá no CAPSAV, Intituição da qual faço parte, onde vivenciamos muitos momentos difíceis e tantos outros felizes…
    Que benção Marcela em sua vida, não é mesmo?! E que presentão de Deus à sua família e a todos nós que só ganhamos por ter pessoas como você e seu marido, corações generosos e verdadeiros soldados de Deus!
    Parabéns por sua linda história e por nos dar esta oportunidade de conhecer este trecho de sua vida!
    Agradeço imensamente por sua visita, lá no meu cantinho e por seu comentário carinhoso.
    Beijinhos em Marcela e Samuel!
    Forte abraço!
    Muita paz!!

  5. Miguel escreveu:

    Sônia, o que dizer?
    Milagre? Destino? Carma como afirmei no meu texto?
    Acho que tua historia mistura tudo isso e é, ainda, totalmente temperada com o amor puro de um casal feliz.
    Obrigado por dividir conosco tua linda historia.

  6. luzdeluma escreveu:

    Sonia, este tempo de espera até se justifica se formos levar em consideração o tempo que levamos para o planejamento familiar e a própria gestação em si. Parabéns!!
    As informações serão de grande valia. Penso que não mudaram muito o modo de análise e escolha.
    Beijus

  7. Talma escreveu:

    Pronto, comecei me arrepiando MESMO, menina, parece até que faz frio aqui te tanto que meu braço está arrepiado!!
    Seu testemunho é muito importante e verdadeiro, essa fila de espera é um tormento e as criaças dos abrigos, nem sempre estão para adoção. Felizmemte para elas, a lei acabou de mudar e existe agora, um prazo limite para a família se reorganizar, caso contrário, eles destituem o pátrio poder. Eu passei por isso em Bagé, antes da Mariana. No final daquele post, tem um link para uma postagem minha sobre esse caso específico, quando der, passa lá.
    Mas vaoltando ao seu post: menina, quando li que vc estava indo para onde sua filha os esperava, fiquei maluca! É impressionante, como os anjos trabalham para nos ajudar!
    Seus filhos são lindos, lindos, lindos…felicidades sempre, menina!

  8. Beth/Lilás escreveu:

    Querida Sonia!
    Que história linda de espera e felicidade!
    Sua Marcela é mesmo lindona e de sorriso iluminado.
    A demora nestes casos deve ser muito stressante para as pessoas que sonham com este dia, mas acho que tudo isso até serve para a formação lá dentro da gente do que iremos fazer, do grande passo que iremos dar e enfrentar quando decidimos cuidar de um ser humano.
    Parabéns a vocês e a Marcela por ter encontrado uma mãe tão maravilhosa.
    beijos a todos desta linda família.

  9. Andréa Motta escreveu:

    Sonia, eu ainda não tinha lido seu texto para a coletiva. Conhecer essa linda história de amor só aumentou minha admiração. Eu não sabia que o processo de adoção era tão longo e desgastante.
    Aproveito para agradecer sua adesão a Coisas do Brasil 2. Beijos nas crianças!

  10. clabrazil escreveu:

    É demais mesmo, Sônia!

    Tantas coincidências… estava escrito nas estrelas! Que linda história.
    Beijos,
    Clarisse

  11. Espaço Mensaleiro escreveu:

    Soninha,

    muitas saudades…

    Parabéns!
    Eliana

  12. Cybele Meyer escreveu:

    Olá Sonia,

    Que história maravilhosa!
    Realmente precisa estar muito segura do que se quer para não desistir.
    Parabéns pela vitória!
    Adorei conhecer um pouquinho de você.
    Colocarei minha postagem amanhã.
    beijinhos e Felicidades para a família.

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