Sobre a morte e o morrer

Como já lamentei com vocês, meus dias têm voado…….. literalmente…. mas algo que costumo fazer é pelo menos ler alguns jornais online. De ontem para hoje, deparo-me com o falecimento de três pessoas que fizeram a diferença neste mundo e mesmo sem tê-las conhecido de perto, sinto-me triste.

Lamento as mortes de Waldick Soriano, Fernando Torres e Cleyde Prado.

Waldick e Fernando foram dois artistas talentosíssimos, cada qual em sua área. Um era conhecido como cantor brega, mas tocou em muitas ‘vitrolas’ brasileiras. Meu pai o adorava e nós filhos sempre ouvíamos as músicas dele quando crianças. Fernando Torres era um de nossos ícones do teatro, o patriarca de uma família maravilhosa de artistas. Por fim, a Cleyde Prado. Uma mulher como eu, como você, como qualquer uma. Uma guerreira. Como pode tão jovem ainda? Para quem não se lembra, a Cleyde era a mãe da menina Gabriela que foi absurdamente assassinada por policiais numa estação de metrô no Rio de Janeiro há alguns anos. A partir daquele dia devastador, Cleyde Prado criou o movimento “Gabriela sou da paz”com seu ex-marido. Hoje ela teve uma indisposição e foi constatado um AVC que culminou com seu falecimento.
Nada mais verdadeiro do que este ditado: “para morrermos, basta estarmos vivos”. Portanto, amigos, não nos esqueçamos de sermos felizes hoje.

Quem deve estar feliz da vida é a Gabriela que agora está mais próxima de sua mãe. Nós aqui lamentamos.

Rubem Alves uma vez escreveu um belo texto sobre a morte e aqui eu o reproduzo para quem tiver o desejo de ler:
Sobre a morte e o morrer

Rubem Alves


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

Fonte das fotos: google imagens

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Esse texto foi postado em sexta-feira, 5 de setembro de 2008 às 00:36 nas categorias morte. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

9 Comentários para “Sobre a morte e o morrer”

  1. vlad escreveu:

    Adorei o seu blog! Costumo ler o blog da Andrea motta, que foi minha professora de português. Lá ahavia uma indicação sobre o seu blog, e resolvi conferir. Não me arrependi! Você esta realmente de parabéns! O seu texto sobre a morte me fez refletir sobre coisas que até então eram estáticas.

  2. Sonia H. escreveu:

    Olá, Vlad,

    Muito obrigada por sua visita! Fiquei muito feliz com os elogios!
    Volte sempre!
    Sonia

  3. Ivan escreveu:

    A Andrea convidou para vir e vim.
    Ainda bem.

  4. Blog do Beagle escreveu:

    Sonia, voltarei para sler o texto sobre morte noutro momento. Linda homenagem aos que se foram, especialmente para Cleyde. Bjkª. Elza

  5. Grace Olsson escreveu:

    Querida,

    tenhamos a crença que for a morte é um mistério. Tem horas que penso que a gente diz
    ‘FULANO SE FOI E AGORA SEU FILHO OU MÃE,PAI QUE PARTIU ANTES ESTÁ EM BOAS MÃOS” para aceitarmos o inaceitável, o desconhecido, o que não sabemos definir por que não queremos conhecê-lo.
    Essesdois tiveram passagens importantes por minha vida.
    A Cleyde foi uma batalhadora. Lembro dela.
    Infelizmente, numa hora dessas, fico sem saber o que dizer. Prefiro concordar contigo e dizer

    AGORA, ELE FARÁ COMPANHIA AOS QUE PARTIRAM ANTES.

    BEIJOS, AMIGA.
    ANDO SENSÍVEL DEMAIS.
    DIAS FELIZES

  6. Aninha Pontes escreveu:

    A morte sempre me assusta.
    Hoje já penso nela mais assiduamente, e procuro não pensar, para não sofrer antecipadamente.
    O fato de pensar na minha morte não me assusta tanto, quanto o pensar nos meus. Isto me apavora.
    Um beijo e bom final de semana.

  7. Lilás escreveu:

    Pois é, querida amiga,
    Ninguém nunca está preparado para a chegada desta dor maior, mas os dois homens já eram mais idosos e sofriam de algum mal, porém a Cleide foi surpreendente, afinal tão nova!
    Acho que o sofrimento por que ela passou atingiu-a fortemente.
    Que estejam bem em outro plano e saibam que deixaram saudades.
    abraço prá você.

  8. Tina escreveu:

    Olá querida, na verdade, o que me chamou atenção foi o titulo: Sobre a morte e o morrer, perdi o meu filhinho dia seis deste fez um ano, ele tinha 15 anos, e eu vivo agora na mais plena dor.
    Então leio tudo sobre a morte,essa tão impiedos realidade.
    Parabems pelo espaço.
    Gostei muito, e sempre vou visitar ok?
    Abraço.

  9. Sonia H. escreveu:

    Olá, Tina,
    Lamento a morte do teu filho. É realmente muito duro perder quem amamos. Principalmente em se tratando de um filho. Não posso nem quero imaginar tal dor…
    Mas gostaria que você soubesse que estamos todos juntos nesta vida para nos apoiarmos. Tens um ombro amigo aqui, viu.
    Apareça mais vezes.
    Gostaria de entrar em contato com você.
    Você tem blog?
    Abraços,

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