Curiosidades cariocas – Análise sociológica do lixo


Meu lixo é a minha cara

Análise das sobras feita pela Comlurb, desde 1996, revela intimidades dos cariocas: alimentação natural em Santa Teresa, produtos caros na Lagoa e a tradição de comer em casa dos tijucanos

Maria Luísa Barros


Rio – O lixo nosso de cada dia revela a verdadeira identidade dos cariocas. Como um raio- X, restos coletados pelos garis são capazes de contar os mínimos detalhes da intimidade de cada um. Coisas particulares que, na lixeira, se tornam públicas. É possível saber, por exemplo, que Copacabana é o lugar onde há a maior concentração de caixas de remédios, muitos de venda controlada. Não por acaso, o bairro com maior número de idosos.

As sobras que são o fim para a maioria, para a Comlurb são o começo de um trabalho de análise sociológica do lixo, feito desde 1996. “Dá para saber se a pessoa bebe, que tipo de bebida. Se fuma, se come em casa, se lê jornal, se mora sozinha, se tem cachorro. O lixo conta tudo”, diz a bióloga e gerente de pesquisas Adair Ferreira Motta Teixeira.

O objetivo da investigação nas lixeiras é definir novas rotas e tipos de caminhões. Mas as amostras colhidas de porta em porta permitem montar perfis de cada região. Na Zona Sul e Barra da Tijuca, as caçambas seguem abarrotadas de jornais, revistas, importados e artigos finos. “Quanto maior volume de embalagens, papel e papelão, maior o poder de compra”, revela Adair.

No lixo da Lagoa, a maior renda da cidade, chama a atenção a quantidade de extratos bancários, jornais de classe, faturas de planos de saúde, sabonete líquido e vinhos importados. “Se o meu lixo falasse, diria que sou consumidora voraz de suco, jornais e revistas e obcecada por limpeza”, brinca a jogadora de vôlei Virna Dias, 36 anos, moradora do bairro.

No outro lado do túnel, as lixeiras estão cheias de matéria orgânica. Cascas de frutas, legumes e sobras de comida revelam que as famílias tradicionais da Tijuca, Grajaú e Vila Isabel mantêm o hábito de almoçar em casa. “Não sou de freqüentar restaurante. Só em datas especiais, como Dia das Mães. No dia-a-dia, gosto da comidinha de casa”, conta a aposentada Jucélia Bessa, 65 anos, moradora do Grajaú.

Os restos também contam histórias de Santa Teresa, bairro alternativo adotado por artistas. As caçambas estão sempre cheias de produtos naturais. Muito chá, orgânicos, bebidas à base de soja e vinhos. “São mais bucólicos, voltados para a natureza e fãs de alimentação saudável”, entrega Adair. O artista plástico Dony Gonçalves, 52 anos, não abre mão dos chás nas aulas de cerâmica no ateliê Casa Amarela. “Somos mais sensíveis. Muitos aqui têm horta. A Comlurb está certa. Realmente consumo arroz integral, carne de soja e açúcar mascavo”, conta Dony.

As lixeiras do subúrbio mostram que, apesar da renda menor, ali se é mais feliz. “Na segunda-feira, há muito resto de carvão e churrasco. Eles reúnem mais os amigos e a família no fim de semana”, analisa Adair. Nos bairros mais carentes do Centro, chama a atenção a quantidade de roupas velhas que não aparece nas áreas nobres.

UMA DÉCADA DE MUDANÇA NO CONSUMO

Dez anos de pesquisa forçaram mudanças nas rotas dos garis. O lixo sofisticado da Zona Sul migrou para os condomínios da Barra da Tijuca. Com a oferta e variedade de produtos nos supermercados, o subúrbio passou a ter acesso ao mesmo consumo dos bairros nobres.

“Eles têm a mesma variedade oferecida aos ricos, só que em menor quantidade e com qualidade inferior”, explica a pesquisadora Adair Teixeira.
Até os tradicionais tijucanos aos poucos estão deixando de cozinhar em casa para também aderir aos restaurantes a quilo.

Fonte:http://odia.terra.com.br/rio/htm/meu_lixo_e_a_minha_cara_176639.asp

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Esse texto foi postado em domingo, 8 de junho de 2008 às 11:20 nas categorias Curiosidades Cariocas, lixo carioca. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

5 Comentários para “Curiosidades cariocas – Análise sociológica do lixo”

  1. evipensieri escreveu:

    Sonia,

    Muito interessante esse texto ! Achei ótimo …

    Bjs.
    Elvira

  2. sonia a.m. escreveu:

    Ótimo post! Interessante esta pesquisa e bastante reveladora. É uma boa idéia para que a gente preste atenção no próprio lixo.

    Obrigada pelos elogios às minhas árvores. Um bom domingo! Beijos!

  3. Alê escreveu:

    Que matéria interessante.

    Uma coisa que fico triste é que no meu prédio não existe programa de reciclagem.

    Beijos

    Alê

  4. Daiana Vasquez escreveu:

    Oi Sonia,
    bom chamar atencao para a questao do lixo. Muito importante.
    Voce deixou um comentario no CNV, mas nem pude lhe responder porque nao tinha o seu email. Fica o meu aqui: email@daianavasquez.com
    Obrigada pela solidariedade.
    Vamos trocando figurinhas, ta?
    Um abraco,
    Daiana

  5. Ane escreveu:

    Muito interessante seu post.Realmente o lixo revela muito como cada pessoa vive.Obrigada pela visita!

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