Base da qualidade – Cristovão Buarque


Amo ler os artigos do Cristovão Buarque. É muita lucidez. Pena ele não ter voz neste governo….


Base da qualidade

O conhecimento é um produto social e depende do número de pessoas que se instruem mutuamente por meio do intercâmbio de idéias, como em um fluxo constante de uns para os outros. Cada pessoa excluída de conhecimento pessoal reduz o potencial do conhecimento de seu país.

Ao lado de uma pessoa sem instrução, até mesmo uma pessoa com doutorado sofre um processo de “analfabetização”, uma redução do seu potencial de conhecimento. Um povo sem educação universal de qualidade não permite o pleno desenvolvimento do conhecimento no seu país.

A principal causa da baixa qualidade de nossas instituições de ensino superior é o baixo nível de conhecimento ao redor delas e, em conseqüência, dos que entram nessas instituições. Em cada 10 crianças apenas quatro terminam o ensino médio, no máximo duas delas com boa qualidade. Joga-se fora o potencial de conhecimento de seis em cada dez brasileiros. É como se, para cada dez poços de petróleo encontrados, tapássemos mais da metade. O potencial fica muito abaixo do nível que poderia ser atingido caso todos os alunos terminassem o ensino médio. No caso do conhecimento é ainda mais grave, porque a falta de concorrência com os que ficaram de fora da disputa deixa acomodados os que podem disputar vaga na universidade, visto que não precisam estudar muito.

Nosso ensino é de baixa qualidade por muitas razões, começando pelo salário, pela formação e pela dedicação dos professores, mas também pela falta do ambiente educacional que “analfabetiza” até os que estudam, por falta de diálogo ampliado e de concorrência para ter acesso aos níveis superiores. Isso explica o baixo nível educacional de nosso ensino superior. Os que entram na universidade têm uma qualificação média muito menor do que deveriam.

Os que saem são poucos e raros com qualificação para fazer do Brasil uma mina de conhecimento, de ciência, de tecnologia. Não tivemos um único Prêmio Nobel no passado e nenhum em vista no futuro próximo, provavelmente porque condenamos milhões ao analfabetismo e à baixa educação de base. Alguns deles poderiam ter sido Prêmios Nobel e poderiam ter ajudado outros a conseguirem destacar-se.

A falta de educação de base funciona como uma imensa bola de chumbo puxando o conhecimento para baixo. Nesse ambiente, os gênios não existem, os bem educados são raros e mesmo estes ficam abaixo do que poderiam, caso o ambiente educacional fosse pleno e de qualidade para todos, servindo para elevar o nível geral do conhecimento nacional.

Apesar dessa óbvia realidade, fala-se em fechar cursos superiores por falta de qualidade, em aumentar os recursos para melhorar os que devem continuar abertos, mas raramente fala-se que a única forma de melhorar a qualidade do ensino superior é universalizar a educação de base até o final do ensino médio com alta qualidade para todos. Isso, por si só, forçaria a elevação do nível dos candidatos ao vestibular, criaria as condições para os bons professores não precisarem perder tempo com o baixo nível em que entram vários calouros, e expulsaria os maus professores, incapazes de conviver com alunos qualificados.

O Brasil sofre a falta de uma massa crítica de educação, por falta de educação qualificada das suas massas. Não educamos nosso povo e em conseqüência temos um baixo nível de conhecimento no conjunto da sociedade.

O resultado é um país amarrado, sem dispor do capital fundamental para o progresso no futuro: um elevado nível de conhecimento científico, tecnológico, cultural, que não existirá se não tivermos uma massa populacional com elevado nível de conhecimento.

Na educação, a base da qualidade está na qualidade da educação básica para todos. Esse é o segredo que se evita falar porque seus resultados são demorados, e somos um país viciado no imediatismo; e porque a ausência de milhões na educação de base funciona como uma cota que beneficia aqueles que pouco estudam, privilegiados pela barreira da falta de educação dos que nada estudam.

Cristovam Buarque é senador pelo PDT do Distrito Federal.

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/


Tenham todos um ótimo sábado e domingo!

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Esse texto foi postado em sábado, 24 de maio de 2008 às 14:47 nas categorias Cristovão Buarque, Educação, Ensino. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

2 Comentários para “Base da qualidade – Cristovão Buarque”

  1. Georgia escreveu:

    Soninha, cheguei atrasada para a festa da sua princesa. Que pena. Mas estou chegando hoje para desejar tudo em dobro. Muitas bencaos e esse video é sublime. Eu tenho o cd desde 2002. As criancas adoram. É mesmo super especial para as criancas e para nós adultos também.

    Parabéns mais uma vez a sua princesa e que ela cresca em graca diante de Deus e dos homens.

    Beijao

  2. Alê escreveu:

    Olá

    Adorei esse post sobre educação.

    Quando eu fiz o colegial, éramos obrigados (mas com muito gosto), a ler as obras literárias de autores nacionais e ainda estudávamos muito sobre escritores de outros países.

    Explicando: nosso professor de português nos informou no primeiro ano do colegial que ficaria conosco pelos três anos subseqüentes e já no primeiro ano, nos passou uma lista das obras literárias que ia de Machado de Assis, Jorge amado, Guimarães Rosa e por aí vai.

    Nós nos reuníamos em grupos de quatro pessoas, escolhíamos um livro, resumíamos e líamos na frente da sala para a classe toda.

    Então, os outros grupos também liam os seus resumos (era mais explicativo mesmo do que leitura) e aí nós distribuímos o nosso resumo para os outros grupos e vice-versa.

    Então, nossas provas eram sobre o resumo dos livros.

    Se alguma peça teatral entrava em cartaz de algum livro que estávamos lendo ou não, sempre íamos assistir com nosso professor

    Eu não sei se ainda há um festival sobre o livro Os Sertões, mas eu me lembro que o grupo que estava lendo o livro na época viajou para a cidade onde estava acontecendo esse encontro.

    E ainda, nosso professor alugava fitas de vídeo e passava as minisséries dos livros adaptados para assistirmos.

    Minha escola era estadual e hoje nosso professor trabalha na Unicamp.

    Tempos bons aqueles.

    Beijos

    Alê

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