VIVA A POESIA! – Segunda Parte -


Encontrei Drummond no You tube declamando vários de seus poemas. No site Memória Viva, vocês encontram vários poemas declamados por nosso grande poeta, aliás, este site é excelente! Vale a pena conferir!


Mundo Grande

Carlos Drummond de Andrade

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Outro poema do Drummond que escolhi já foi musicado por Milton Nascimento. É lindo ouvir este poema na voz do Milton! É do disco Clube da Esquina 2. Quem conhece, sabe da maravilha de que estou falando.

Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Também encontrei alguns poemas da Cecília Meireles declamados por ela mesma, como em
“Retrato.

Porém, o poema a seguir me encanta à beça. Chama-se “Vôo”.

Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras como águias imensas
Como escuros morcegos, como negros abutres, as palavras voam.
Oh! Alto e baixo, em círculos e retas, acima de nós, em redor de nós, as palavras voam
e às vezes pousam.

Cecília por ela mesma:

“Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o
segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Cecíclia Meireles”

( fonte: www.tvcultura.com.br)

São tantos outros poetas maravilhosos… Sinto-me literalmente culpada por não estar aqui prestando-lhes as devidas homenagens… Mário Quintana, Cora Coralina, Vinícius de Moraes. Machado de Assis, por que não? Apesar dele ser mais conhecido e lido por sua prosa literária, já li lindos poemas do bruxo do Cosme Velho. Aos poucos, vou revisitá-los. Com certeza.

Tenham todos um ótimo fim-de-semana.

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Esse texto foi postado em sexta-feira, 14 de março de 2008 às 19:44 nas categorias Cecília Meireles, Literatura Carlos Drummond de Andrade, Poesia. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

4 Comentários para “VIVA A POESIA! – Segunda Parte -”

  1. Cristiane Fetter escreveu:

    Cada um mais lindo que o outro.

    Beijocas

  2. Cristiane Fetter escreveu:

    Estou precisando da ajuda dos amigos, vai lá em casa que no post você vai entender.
    Se quiser é só clicar AQUI.
    Obrigada,
    Beijocas

  3. Sonho Meu escreveu:

    D. de Andrade é unico.
    bjos,
    me

  4. Sónia Marques escreveu:

    Adoro este poeta…embora só á pouco tempo tive oportunidade de o ler!

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração.

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não.

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão.
    Carlos Drummond de Andrade

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