João Hélio e tantos outros Joãos e Marias



Antes de João, depois de Hélio
Publicada em 01/02/2008
Por Tico Santa Cruz

Que o Rio de janeiro é uma cidade em guerra e dominada pelo poder paralelo só os políticos e as autoridades é que insistem em não assumir. Que uma infinidade de covardias e violências acontecem todos os dias na rotina desta metrópole afundada na apatia de seus cidadãos e na omissão de sua sociedade não há argumentos que provem o contrário, basta sujar as mãos de sangue com os noticiários. Personagens e tragédias estão tão em evidência quanto o carnaval ou o BBB. Acontece que nesta quinta-feira, dia 7 de fevereiro, faz um ano que uma criança, o menino João Hélio Fernandes Vieites, então com seis anos, foi arrastada pelos subúrbios numa via-crúcis que deixaria mestres do terror cinematográfico americano com as bochechas vermelhas de vergonha e os olhos cheios de lágrimas.
Pois infelizmente João Hélio não foi a única vítima das atrocidades a qual estamos submetidos. Outros anônimos sofreram, sofrem e sofrerão as conseqüências do descaso de décadas com a educação, a dignidade e a segurança pública da população. Sem dúvida nenhuma a história do Rio de Janeiro se divide em antes e depois do filho de Élson e Rosa.
A indignação e a revolta com o episódio levaram mais de 1.500 pessoas à missa de sétimo dia na Igreja da Candelária. Faces transtornadas, bocas rufando ira e clamando por justiça, idosos e jovens misturados compartilhando uma dor que jamais poderão imaginar.
Estive o tempo todo do lado de fora observando a movimentação da imprensa e dos curiosos. Ouvia de longe os discursos fervorosos e as palavras de conforto que o padre insistia em pregar perante milhares de pares de ouvidos. Na saída, com um megafone, gritamos para que os presentes tomassem as ruas para protestar contra o absurdo que deixamos acontecer. Por mais ou menos uma hora ganhamos a Avenida Rio Branco aos gritos de “justiça”. O hino nacional foi cantado e parecia que finalmente o povo estava despertando para o único caminho que leva as conquistas legítimas em qualquer democracia séria, o caminho da união e da pressão popular por seus direitos nas ruas. Foi emocionante enquanto durou.
Ao longo desse um ano, grupos como o “Voluntários da Pátria”, “Gabriela eu sou da Paz”, “Rio de Paz”, dentre outros, organizaram passeatas, atos e esboçaram reação com algumas reuniões do que seria o “Rio unido contra a violência”. À medida que o tempo foi passando, fomos todos perdendo as adesões efusivas da sociedade e meses depois éramos somente uns apoiando os movimentos dos outros. Não deixamos a chama se apagar. Diversos manifestos foram praticados e continuam sendo organizados. Pode-se dizer que a morte de João Hélio fez com que o coma coletivo arfasse sinais de vida.
O Brasil inteiro voltou a discutir a redução da maioridade penal. Debates foram promovidos, comissões foram criadas e opiniões divididas, tendo como ponto positivo o fato de que, para acalmar a opinião pública, nossos parlamentares colocaram de volta em pauta a votação de alguns itens relativos à segurança que foram deixados de lado.
Em meio ao mar de incompetência administrativa, o carioca percebeu que o perigo não estava mais só nas comunidades carentes, distante dos condomínios seguros e das ruas bem iluminadas da Zona Sul. E quando a classe média passou a ser alvo constante da violência que outrora fincava seus pés apenas para lá do túnel Rebouças, o assunto ganhou a atenção merecida.
Os movimentos conseguiram chamar atenção para o alto índice de homicídios, também para a relação direta e promíscua da classe política com o crime organizado, corrupção entre outros ingredientes que somam forças nesse cenário caótico. Ainda estamos tentando mostrar que uma sociedade que não tem suas crianças numa escola aprendendo os valores que são cobrados por nós, dificilmente terá adultos com discernimento para desenvolver outra postura que não a de revolta com a falta de condições básicas de existência e de oportunidade. Ouvi da boca de um presidiário: “Se eles não dão valor a nossa vida, por que deveríamos dar valor à vida deles?”.
O paradigma permanece e o maniqueísmo prevalece hostil quando grupos com idéias divergentes optam por virar as costas para um diálogo que pode até não solucionar de uma vez por todas o problema, mas com certeza buscar a redução do número de vítimas. Na minha matemática, se em 360 dias conseguirmos diminuir em 100 a quantidade de óbitos, já estamos dando um passo à frente, ou não?
Um ano depois de João Hélio, as ruas por onde o menino foi arrastado continuam sem policiamento, a sensação de insegurança aumenta, milhares são as vítimas de balas perdidas, assaltos e outras modalidades de violência que se multiplicam. No entanto, o pano de fundo ainda é o mesmo de sempre: escolas caindo aos pedaços, professores mal remunerados, policiais suscetíveis a suborno ou a “bicos” para complementar o péssimo salário que recebem para expor suas vidas, problemas com hospitais e médicos, confronto entre facções, milícias e autoridades. E a classe artística, com raras exceções, quieta, calada, omissa.
O que merece um povo que consegue reunir 1 milhão de pessoas para ver aviões dando rasante na Baía de Guanabara ou que passa noites na frente do Maracanã para trocar latas de leite por ingressos de jogo de futebol, mas que não é capaz de se unir para lutar por seus direitos constitucionais? Tomara que não seja preciso que cada família nesse estado tenha uma história triste ou uma tragédia em seu destino para que possamos nos mobilizar com a mesma disposição que temos para os blocos de carnaval e afins.
Quando viramos as costas para a situação política do nosso país, nos calamos diante da impunidade, das injustiças e das covardias, não só estamos compactuando e dizendo um grande “sim” para que tudo permaneça igual como também estamos semeando uma próxima geração de cidadãos dispostos a qualquer atitude para que prevaleçam seus interesses individuais. João Hélio esfregou em nossas faces o tamanho de nossa incompetência e indiferença com responsabilidades de cidadania. Que sua morte, assim como a de outros tantos, não seja apenas mais uma triste estatística.

Fonte: http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/02/01/antes_de_joao_depois_de_helio-383203843.asp

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Esse texto foi postado em quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008 às 18:44 nas categorias João Hélio, Rio de Janeiro, criança, esperança, saudades, violência. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

4 Comentários para “João Hélio e tantos outros Joãos e Marias”

  1. Aninha Pontes escreveu:

    Sônia meu bem, o triste disso tudo está exatamente aí, no esquecimento da população, é sempre o mesmo exercíco de memória curta.
    Enquanto dinheiro público escorre pelo ralo, a miséria humana continua.
    Enquanto se gasta o dinheiro público em uso do bem pessoal, como o caso dos cartões, a população se mata, de fome, de miséria, de luta corpo a corpo, em busca de uma luz.
    A violência não só do Rio, mas de todo o país é fruto da falta de educação, educação de um povo, para se respeitar a vida alheia.
    A vida não vale mais nada, muitas vezes um punhado de maconha, ou cocaína, ou coisa que o valha, e até quem sabe um pedaço de pão.
    A população cruza os braços, esquece que na outra esquina pode estar o término de sua própria vida.
    Triste, mas real.
    Um beijo querida.
    Me alonguei muito, mas o assunto merece.
    E também estava em débito com você.

  2. evipensieri escreveu:

    Esse foi um caso impressionante. Nunca vi tanta crueldade.
    que ponto o ser humano chegou.

    Bjs.
    Elvira

  3. Meire escreveu:

    Poxa!
    Fez um ano…e nada mudou.

    Soninha,

    No meu post de ontem:
    http://meiroca.com/2008/02/08/mais-de-mim/#comments
    dexei liçao de casa para voce.

    Beijos

    Meire

  4. Alê escreveu:

    Olá

    É trsite ver que a mesma história se repete todso os dias em vários lugares do nosso País.
    A violência com está aí, talvez, quem sabe, batendo daqui a pouco em nossa porta.
    Quando aconteceu este caso do João Hélio chorei muito, porque eu não conseguia acreditar no que lia.
    Eu não sei o que sentem as pessoas que cometem atos assim, porque eu me questiono sobre o que este país faz para melhorar nosso ensino, educação, enfim o beme star social.
    Ao mesmo tempo também penso no instito cruel do ser humano que muitas vezes se revela e está ali tão perto do nosso alcance e no entanto muitas vezes desconhecemos.
    Espero que um dia as coisas mudem, pois ainda tenhoe speranças de ver um mundo melhor, muito embora,acontecimentos como este infelizmente por alguns momentos me trazem muita descrença e indignidade quanto ao país e quanto aos seres humanos.

    Beijos

    Alê

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