Até quando?

Sem palavras…. Sonia H.

Betancourt descreve o cotidiano no cativeiro

Lúcia Jardim (Paris)

“Aqui, nós vivemos como mortos”, resume Ingrid Betancourt sobre a vida que leva há 2.107 dias como refém das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O Comitê de Apoio à Ingrid Betancourt enviou hoje de manhã à imprensa francesa extratos da carta de 12 páginas escrita por ela para a sua mãe.

O governo colombiano entregou a carta à família de Ingrid na sexta-feira, depois de capturar três guerrilheiros da organização de extrema-esquerda e com eles encontrar cinco vídeos que mostram imagens de 15 seqüestrados – entre eles a senadora franco-colombiana – e cartas dos reféns aos familiares.
Ingrid abre o texto dizendo que está mal psicologicamente, sem apetite e, por isso, não se alimenta. “Os cabelos me caem em grandes quantidades. Não tenho vontade de fazer nada”, continua. Ela refere-se ao local em que se encontra como “essa selva”.
“A vida aqui não é vida, é um gasto macabro do tempo. Eu vivo, ou sobrevivo, numa barraca feita entre dois piquetes, recoberta de um mosqueteiro e com uma tenda embaixo, que faz as vezes de telhado e me permite pensar que tenho uma casa”, descreve.
Ela conta que leva consigo uma Bíblia e que faz três anos que pede uma enciclopédia aos seqüestradores, “para ler alguma coisa, aprender alguma coisa, manter viva a curiosidade intelectual, e espero que pelo menos por compaixão eles irão procurar uma, mas é melhor não pensar nisso”.
Ingrid diz ainda que “cada coisa é um milagre, mesmo escutar todas as manhãs, porque o rádio que tenho está velho e estragado”. Ela solicita à sua mãe que peça aos seus filhos para mandarem ao menos três mensagens por semana, “porque essa é a única informação vital, transcendente, indispensável; o resto não me importa mais”.
Ingrid diz que os reféns têm de estar sempre prontos para partir para “não se sabe onde, como animais”, tendo de ficar permanentemente com os objetos pessoais guardados em uma mochila. “A caminhada é um calvário porque o meu equipamento é muito pesado. Eu perco as minhas coisas ou eles as levam, como a calça jeans que a Mélanie (filha de Ingrid) tinha me dado no Natal e que eu usava quando eles me levaram”, diz, acrescentando que tem apenas um casaco para se cobrir nas noites “geladas”.
Ela explica que antes gostava de nadar no rio, onde também toma banho, mas que hoje em dia não tem mais fôlego. “Me sinto como um gato diante da água.” Em seguida, ela relata que é difícil ser a única mulher entre tantos prisioneiros homens, e que os seqüestradores lhe tiraram “o que nos é mais querido”.
“Uma carta tua, os desenhos de Anastácia e Stanislas (sobrinhos de Ingrid), as fotos de Mélanie e Lorenzo (filhos dela), o escapulário de papai, um programa do governo. Eles me levaram tudo, a cada dia sobra menos de mim.”
Na segunda metade do texto, ela se dedica a falar da família e dos filhos, dizendo que chora muito ao pensar neles, mas que se sente consolada ao pensar que Fabrice Délloye, o pai das crianças, certamente está sendo responsável ao cuidá-los na sua ausência.
Ingrid acrescenta que a cada aniversário dos filhos, ela canta “Parabéns” e pede aos guerrilheiros se pode lhes fazer um bolo, mas a resposta é sempre “não”. Com muito carinho e afeto, ela diz à filha Mélanie, a quem a ex-senadora chama de Melelinga, que é “a mãe mais orgulhosa” e que está muito feliz por saber que a filha cursa agora um mestrado em Nova York.
Mas a mãe pede também à filha que prometa que vai completar os estudos fazendo depois um doutorado. “Mélanie, eu sempre te disse que eu tu és a melhor, bem melhor que eu, um tipo de melhor versão do que eu sempre quis ser.”
Ainda muito carinhosa, Ingrid se dirige, então, ao caçula Lorenzo, a quem chama de Loli, e conta que já o ouviu muito na rádio. “É a voz do meu filho, mas já existe um outro homem na voz da criança. Um dia, eu recortei uma foto de um jornal que chegou aqui. Era uma propaganda de um perfume. Tem um jovem e eu me disse: meu Lorenzo deve estar como ele. E guardei a foto.”
Ela pede para que filhos estudem muito e que continuem sempre juntos, e diz ao pai deles que ele é o “apoio para continuar a sorrir em meio a tanta tristeza”. Quando se dirige à mãe é que Ingrid fala pela primeira vez em política.
“Na Colômbia, nós devemos pensar nas nossas origens, em quem somos e onde queremos ir. Quando nós formos menos individualistas e mais solidários, menos indiferentes e mais engajados, menos intolerantes e tivermos mais compaixão, nós seremos a grande nação que queremos ser.”
A ex-senadora ainda dedica um parágrafo para agradecer ao apoio do presidente venezuelano Hugo Chávez e a outros políticos latino-americanos que tentam solucionar a questão dos seqüestros. Mais dois longos parágrafos de agradecimentos à França e ao presidente Nicolas Sarkozy, e Ingrid avisa que os guerrilheiros estão lhe pedindo a carta.
Ela termina, então, o texto, afirmando que ainda teria muitas coisas para dizer a todos, mas que o fundamental é que continua a respirar e que ainda tem esperança. “Eu não tenho mais as mesmas forças, é muito difícil continuar a acreditar, mas eu queria que eles (todos os que ajudam na questão) sentissem que o que eles fizeram por nós faz diferença. Nós nos sentimos seres humanos. Que Deus venha nos ajudar, nos guiar, nos dar paciência e nos guardar. Para sempre e jamais.”
Redação Terra

(Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo)

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Esse texto foi postado em quarta-feira, 16 de janeiro de 2008 às 21:26 nas categorias injustiça, morte, vida. Você pode seguir as respostas pelo RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou trackback do teu próprio site.

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